A crítica como estratégia da imprensa

O Chomsky sugere dez pontos para a estratégia de manipulação da mídia. Veja:
https://vaiencarar.wordpress.com/2010/08/01/chomsky-estrategias-de-manipulacao-da-midia/

Eu acrescentaria a estratégia da crítica anestésica.

A Folha de São Paulo é o meu modelo analítico, já que se espalhou na imprensa.

A ascensão da Folha foi uma continuidade do movimento da Anistia para a classe média esclarecida*, aquela que lia Simone de Beauvoir ou Sartre, o Pasquim** e se achava de esquerda.

O fracasso dessa geração em ir efetivamente para a esquerda aconteceu porque ela escolheu o dinheiro.

A ideologia não enche barriga é o lema dessa geração.

Estão todos na direita serrista hoje. Alguns preferem a Marina.

E a Folha participou ativamente desse fracasso, formando opinião.

Lentamente a Folha entregou um a um todos os liames ideológicos que a amarravam.

As cabeças pensantes que eram a imagem do jornal foram trocadas por alinhamento automático.

A cultura underground pouco a pouco virou vitrine.

Surgiu a Revista do Folha, com roupas a 3.000 reais. Foi um espanto! Enquanto o jornal criticava a “insconciência” de ACM ao declarar que o salário mínimo não dava nem para comprar uma gravata e o cidadão se indignava, a revista da Folha anunciava com estardalhaço a chegada de Louis Vuitton, muito aplaudida pelas damas da classe abastada e suas patricinhas, que adoravam ser vendedoras da festejada Daslu, mas só antes de bem casarem.

E eu nem cheguei a ver a Serafina, que me dá engulhos ainda a distância. Será fina? Serafina está na moda, sempre esteve. Desde os tempos da Colônia as mulheres ricas punham seus olhos gordos nos enfeites e acessórios das escravas e empregadas domésticas. A chita é xique, mas prefiro pagar por uma aplicação de chita da filha de uma amiga minha e sustentar a juventude da minha classe social a transferir renda. É impressionante como as madames, ainda hoje em São Paulo, vão às feiras de artesanato. Elas olham, apreciam e não compram nada. É brega coisa barata. Legal é comprar na loja e pagar 300 reais numa camiseta, lenço ou cachecol. Ou 3.500 numa bolsa ou perfume.

Seus maridos lêem o caderno dinheiro e ficam sabendo da condição em que estão as manobras patronais, o câmbio, a situação das principais empresas no mercado e como anda a briga política dos proprietários pelo dinheiro do Estado.

A queda da Folha coincide com a ascenção do Lula. A anestesia crítica da Folha começou a ser curada.

As pessoas liam na Folha as críticas. Em vez de serem elas mesmas críticas, como vendiam os slogans da Folha, as pessoas liam na Folha toda a criticidade que deviam ter no mundo.

“Nossa como o Lula fala errado!; cruzes, olha as criancinhas carentes!; você já viu o último do woody allen? almodóvar? tarantino? você viu o aumento da escola particular? e do plano de saúde?”

Ler a crítica no jornal é um tremendo alívio. Ufa, ainda bem que sou consciente da situação do mundo. Pena que não possa fazer nada. Posso concordar com o que me diz o jornal.

A crítica no jornal vira um vício. Todos estão paralisados. Igual a droga, vídeo game, facebook, twitter.

Uma geração inteira de pessoas que sonhou alto na juventude mas dela só possuem a melancolia. Vivem de revivals, patrocinados generosamente pela Folha.

Lula foi lá e fez. Quando passou a ser notícia até mesmo na Folha, e isso demorou muito, o quadro se formou: um presidente que tinha resultados evidentes na distribuição de renda e desenvolvimento do país.

As pessoas abandonaram a Folha***.

Talvez mais pessoas queiram agir, mais pessoas queiram lutar por uma vida mais digna para todos, por uma igualdade pacífica e amorosa entre as pessoas.

*** A Folha ficou só, entre si mesma: o público ‘ AAA ‘ e seu patético representante político, José Serra.
** O Pasquim: um movimento realmente libertário de jornalistas, incorporado sabiamente pela Indústria Folha na imagem de moderna e independente
* Declaro ponto de vista da classe média. Dele não me orgulho. Reconheço nele preconceitos e apego a privilégios de classe, que sei participam da opressão. Tenho dificuldade de mudar minhas atitudes, de reduzir meu consumo, de fugir ao círculo vicioso dos serviços particulares. Mas isso significa que tenho experimentado.

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Classe média. Não sai da gente. Mas melhora, se a gente estiver disposta a abandonar nosso lugar na opressão.
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2 respostas para A crítica como estratégia da imprensa

  1. bernardo duarte bueno disse:

    É por aí… Intuitivamente me identifiquei, pois vivi isso, não totalmente, mas parcialmente, pois nunca deixei de acreditar na esquerda e de que um outro caminho era possível. Eles são infernais rs! Li varias vezes o Clovis Rossi afirmar que não houve distribuição de renda sob Lula, pois isso e aquilo, enfim, a mesma análise do PSTU, do PSOL, por aí… Então, não pode haver mudança de fato, por isso Lula é tão perigoso! Nem que parcial, moderadíssima, dentro do jogo capitalista… Se Lula não fôsse Lula, se tivesse cedido ás tentações mais á esquerda muito sugeridas no primeiro mandato, teriamos nos perdido sem volta. Felizmente deu tudo muito certo e, realmente, a Folha caiu em desgraça rs! Nem feito rs!

    • C.C. Bregamin disse:

      Valeu, Bernardo. Acho que você sacou bem o que eu queria dizer… Legal… Eu também acho que o psol tem um conteúdo de classe, dos comunistas ricos que não querem sujar suas ideologias nas águas porcas da realidade. Acho que o Lula construiu algo, sim. Tenho a impressão de que ele quer democratizar. E a Dilma. Mas, se ela quiser, vai precisar dos movimentos sociais pressionando pra conseguir viabilizar. Se não quiser, acaba tendo que entregar aos movimentos, se mantiverem-se despertos e atuantes

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