Em defesa da TV Cultura

Por Sergio de Moraes Paulo no blog do Nassif

Nassif,

tenho um blog no qual dei um palpite sobre esse assunto. [publicado logo abaixo] Era para ser algo simples, como a importância da TV Cultura para SP.

Inesperadamente percebi que a TV Cultura fez parte da minha vida, da minha formação.

Cheguei à conclusão de que a TV Cultura é um patrimônio de SP tão importante quanto a USP e o Museu do Ipiranga.

Fiz uma pergunta que tenho medo da resposta: quanto o governo do Estado de SP gasta com publicidade nas grandes redes e quanto ele destina à TV Cultura?

Dá para ser eficiente quando o seu patrão gasta mais com seus concorrentes do que com sua própria empresa?

Nassif, na hora de escrever me lembrei do Bambalalão, da GTigi, do Castelo Ra-Tim-Bum, do É proibido Colar (com apresentação do António Fagundes).

Lembrei do Opinião Nacional e do Ensaio.

Foi inevitável e me lembrei do Herzog.

Sim a TV Cultura incomodou os militares e a morte do Herzog é prova disso.

Os militares não acabaram com a personalidade da Cultura. Maluf, Quércia e Fleury também não conseguiram acabar com ela.

Por que haveriam de conseguir isso agora?

Ficaremos assistindo a tudo isso parados?

Você não acha que está na hora de um movimento suprapartidário em nome a Cultura?

Sim, literalmente em nome da cultura?

abraço.

Sergio de Moraes Paulo

do blog O palpiteiro, de Sérgio de Moraes Paulo

Esse palpite vai na primeira pessoa.
Quando eu era pequeno o mundo era outro. Lembro-me do Ernesto Geisel como presidente da República e da transmissão do cargo para outro general da ditadura, João Batista Figueiredo. Lembro-me do presente que deram ao Figueiredo: uma placa de ouro com o distintivo do Corínthians. Meu pai disse na sala: “…e ainda por cima o FDP é corinthiano…”. Pelo palavrão sincero aprendi duas coisas: generais na presidência não eram coisas boas, assim como o Corínthians…
Naquela época não havia internet, TV a cabo e os jornais e revistas eram muito caros. As principais fontes de informação para quem era pobre vinham da TV, do rádio e da Igreja.
Sabe-se lá por quais desígnios cresci numa casa onde meu dizia que o Jornal Nacional mentia e que a Globo era um problema para o Brasil, assim com um tal de Sílvio Santos, que meu pai garantia que tinha ficado rico enganando pobres. O curioso é que meu pai não tinha nível superior, não tinha nem o fundamental completo, mas se diferenciava por essas opiniões. Até hoje.
Em casa aprendi a assistir a TV Cultura. Tinha muita coisa legal. Havia um programa infantil chamado Bambalalão e uma apresentadora que eu achava linda. Ela não usava roupas de quenga como a Xuxa, tinha boa dicção e conversava com fantoches. O nome dela era Gigi. Talvez eu a achasse bonita por que dizia coisas interessantes num programa que era feito para crianças, numa emissora que se orgulhava de se dizer “educativa”. Em casa sabíamos que era a RTC – Rádio e Televisão Cultura, mantida pela Fundação Padre Anchieta.
Havia respeito pela TV Cultura em casa. A emissora tinha o mesmo status que os professores da escola e os padres da Igreja Católica.
Na TV Cultura faziam programas para adolescentes. Tinha um chamado “É proibido Colar”, com apresentação do António Fagundes e da Clarice Abujamra. Era uma competição de conhecimentos e manifestações artísticas entre escolas públicas de SP. Minha escola, o Gomide, foi no “É proibido Colar”. Foi um grande acontecimento.
Cresci vendo a TV Cultura. Quando estava no ensino médio criaram um programa chamado “Matéria Prima”, apresentado por um tal de Serginho Groissman. Havia debate político, ético, moral e artístico. No final do programa sempre tinha uma banda de rock tocando. Fui duas vezes no Matéria Prima. Apareci na televisão, os colegas viram e fiquei feliz.
Tinha um programa chamado “Vitória”, o único que tratava de esporte sem se restringir ao Futebol. Tinha matérias sobre skate numa época em que skatista era tido como bandido em SP. Foi no Vitória que vi pela primeira vez um moleque que jogava volêi no Pinheiros e que mais tarde se tornaria parte da primeira medalha de ouro do Brasil em esporte coletivo, na olimpíada de Barcelona em 1992.
Mas havia também um programa de bandas de rock amadoras chamado “Fábica do Som”. Muita gente boa passou por lá. E muita gente se tornou boa tentando tocar lá.
Quando estava quase adulto acompanhei a TV Cultura pelo jornalismo e pelos documentários. Tinha muita coisa boa. A Cultura passava muitos documentários da BBC de Londres. Daqueles que a Globo e o SBsTeira jamais ousariam transmitir.
Tinha até cursinho pela TV, o “Vestibulando”. Professores de grandes cursinhos de SP davam aula na TV aberta e eu aprendi muita coisa para o vestibular que me permitiu entrar na USP. Mais tarde, dando aula em cursinho, ficava discretamente emocionado ao dividir uma sala de professores com alguns dos mestres que me ensinavam pela TV.
A TV Cultura também participou de minha formação política. Quando pequeno, lembro-me do meu pai assistindo um programa de entrevistas chamado Vox Populi. Pessoas eram abordadas nas ruas e faziam suas perguntas a um entrevistado no estúdio. Outro programa muito bom foi o Roda Viva, numa época em que o partido do governo do Estado não interferia tanto na escolha do entrevistado e muito menos nas perguntas dos entrevistadores. Paulo Maluf, Mário Covas, Leonel Brizola, Fernando Henrique Cardoso, Lula e outros passaram por lá. Se não me engano Lula foi o político que mais vezes se sentou no centro do Roda Viva.
Na década de 1990 havia um programa diário de entrevistas chamado “Opinião Nacional”. Era excelente. Foi nesse programa que uma vez eu assisti a uma conversa entre Delfim Neto e Maria da Conceição Tavares sobre a crise do Real em 1998. Uma aula de economia e política em pouco mais de 30 minutos.
Assim era a TV Cultura.
Mas algo aconteceu com ela nos últimos anos. O governo cortou verbas e a Fundação Padre Anchieta passou a ter problemas cada vez maiores com a manutenção dos programas. Gradativamente a TV Cultura foi colocada numa condição de penúria que deturpou a sua finalidade. A TV Cultura é uma emissora pública que nasceu para transmitir programas que não interessam às grandes redes. Enquanto a a Globo transmitia filmes americanos a Cultura transmitia um programa de entrevistas e música chamado “Ensaio”. Adoniran Barbosa, Elis Regina e Racionais são apenas alguns dos nomes que passaram pelo programa. O SBT passava novelas mexicanas, enquanto a Cultura transmitia programas como “Anos Incríveis” e o “Castelo Rá-Tim-Bum”.
A Cultura passou a perseguir índices de audiência como as redes comerciais. Para uma TV sem recursos era necessário buscar patrocinadores. Empresas só colocam dinheiro onde puderem ter retorno. Para muitos empresários- talvez todos- não vale a pena investir milhões de reais numa emissora que não alcança milhões de pessoas. Foi por isso que a Cultura partiu para o suicídio. Passou a se pautar por interesses cada vez mais comerciais para poder atrair patrocinadores que gastam dinheiro com propaganda.
O problema é que a TV Cultura não foi feita para isso. A busca por um linha mais comercial tem acabado por tirar o que a emissora tem de melhor que é a personalidade. Infelizmente muita gente acredita que o povo não quer cultura e sim bobagens. Não interessa a muita gente programas como o “Viola, minha Viola” ou o “Senhor Brasil”.
Recentemente a imprensa tem anunciado que o atual presidente da Fundação Padre Anchieta “vai cortar gastos”. Entenda-se aqui demissões e redução de gastos com produção. Corre a notícia que 1.400 dos 1800 funcionários serão demitidos.
A equipe que fazia o “Có-có-ri-cor” foi demitida pelo telefone, sem o menor respeito humano.
O palpiteiro num primeiro momento lamenta a opção pelo desmantelamento de uma emissora que é mais do que uma TV. Trata-se de um patrimônio do Estado de SP. Tão importante quanto o museu do Ipiranga ou a USP. Com a diferença de que a Cultura leva conhecimentos diretamente a um público muito maior.
A TV Cultura não vai morrer!
Os militares se incomodavam com a programação dela. Chegaram a matar um de seus jornalistas, Wladimir Herzog, que mais tarde se tornou um símbolo para a luta da sociedade brasileira contra a tortura e o arbítrio.
Paulo Maluf não conseguiu destruir a TV Cultura, assim como Quércia e Fleury.
Não será agora que isso irá acontecer.
O palpiteiro cresceu vendo a Cultura e tem uma dívida muito grande com seus profissionais.
Não aceito e não sossego enquanto não me derem garantias de que a TV Cultura esteja a salvo de burocratas assassinos. Assassinos de cultura.
Para notícia sobre o assunto:
Carta de compromisso proposta pela CUT para os candidatos ao governo do Estado de SP em defesa da TV Cultura:
Que tal abrirmos um debate sobre o assunto:
“Como manter uma emissora pública e de qualidade?”
Quem deve pagar pelo financiamento da Cultura?
Quantos milhões de reais o governo do Estado gasta com publicidade nas grandes redes?
Seria o caso de estabelecer um teto: o montante gasto nas emissoras privadas não poderá ser nunca maior do que o que se gasta com a TV Cultura?
Sei lá…
Vamos matutar…
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Sobre CCBregaMim

Classe média. Não sai da gente. Mas melhora, se a gente estiver disposta a abandonar nosso lugar na opressão.
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