Israel deixa Palestina sem água

Controle de terras, vidas e água
Cidades árabes da Cisjordânia recebem água apenas a cada cinco dias; consumo de israelenses é cinco vezes maior que o dos palestinos

10/08/2010
Dafne Melo No Brasil de Fato
enviada a Ramallah (Palestina)

tanques_agua_palestina.gifAo andar pelas estradas da Cisjordânia, a vista de casas aglomeradas, de longe, pode gerar a dúvida na cabeça de um estrangeiro: uma colônia judia ou um vilarejo árabe? A resposta é obtida pela presença ou não de caixas d’água em cima dos telhados. Como todos os recursos hídricos da Palestina, o tratamento e distribuição de água são controlados por Israel – inclusive na Cisjordânia. Os palestinos recebem água apenas uma vez a cada cinco dias, em média, e são obrigados a armazenar o máximo possível do recurso em tanques, geralmente pretos, colocados em cima dos telhados.

Em média, um palestino consome 80 litros de água por dia, abaixo do mínimo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de 100 litros por dia per capita. Já um israelense chega a consumir 420 litros. Um relatório feito pela Anistia Internacional sobre o tema, em outubro de 2009, apontou que, em áreas rurais, há árabes vivendo com menos de 20 litros por dia.

Na Faixa de Gaza, a situação é ainda mais grave. A área, sob governo do partido islâmico Hamas, é abastecida pelo Aquífero da Costa. Entretanto, devido à extração intensa para suprir as demandas da região – que possui uma das maiores densidades populacionais do mundo –, cerca de 90% de suas águas está contaminada por esgoto ou água do mar e é imprópria para uso. O Estado de Israel não permite a transferência de água da Cisjordânia para Gaza, tampouco projetos de dessalinização.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o engenheiro Yousef Awayes, do Ministério das Águas, da Autoridade Nacional Palestina (ANP), afirma que qualquer esforço dos palestinos para resolver os problemas são barrados. “[Os israelenses ] não aceitam porque precisam controlar tudo, saber toda água que consumimos”.

Brasil de Fato – Qual é a atual situação do controle da água por Israel?

Yousef Awayes – O controle da água é um ponto estratégico para Israel, que faz um esforço para controlar todos recursos hídricos. Nós consumimos 15% dos recursos, mas não controlamos nada, pois esses 15% também são controlados por Israel. Às vezes, há uma confusão sobre o tema, pois há quem diga que controlamos esses 15%, e os israelenses os outros 85%, mas, na verdade, eles controlam tudo. Nosso consumo pode até aumentar, mas somente se Israel quiser. Quando eles precisam reduzir o consumo de água, os primeiros afetados somos nós. Então, às vezes, até consumimos menos. Em tempo de secas, por exemplo, há medidas de racionamento, que são aplicadas aos palestinos, e, aí, o consumo vai a 10%, até 8%. É o que chamam de Gestão Nacional para Secas. Muitas vezes, faz-se o racionamento, mas tampouco nos deixam controlá-lo. Frequentemente, afirmam que um determinado poço não pode mais produzir, chegam com o Exército e o fecham. E nem mesmo a Autoridade Nacional Palestina [ANP] tem poder de reabri-lo. O ano passado foi declarado um ano de seca, tanto pelos israelenses como pelos palestinos. Eles tomaram medidas internas, mas, primeiro, medidas aqui.

Qual é a média de consumo?

Os palestinos, em geral, mesmo em tempos normais, consomem muito menos que um israelense. Nós, em média, consumimos 80 litros/dia per capita. Um israelense, nas cidades, consome 380 litros/dia per capita, e, nas colônias, chega a [consumir] 420 litros/dia. A média de consumo deles é muita alta. Se comparamos com Europa, por exemplo… na Alemanha, a média é de 240 litros/dia, isso porque lá a precipitação é alta, é um país considerado de terra úmida. A região, aqui, é semiárida. No norte da Espanha, consome-se 300 litros/dia, no sul, 200 litros/dia, ou seja, muito abaixo da média israelense.

tanques_furados_palestina.gifNos planos para a seca, os israelenses também reduzem a água para as colônias judias ilegais na Cisjordânia?

A quantidade de água que chega às colônias israelenses não é tocada. Dentro de Israel, toma-se medidas também, se necessário, mas vai de 380 a 300 litros/dia, reduzindo-se, também, a água usada para irrigação. Se o gasto em irrigação é de 78%, vai para 70%. Outra medida é o aumento do preço da água. Para um israelense, é mais fácil pagar, pois o nível de vida é mais alto que o daqui, além de que, normalmente, o preço que eles pagam já é muito inferior ao que pagamos.

A ANP, se quiser, pode controlar o racionamento?

Jamais dão direito aos palestinos de controlar ou gerir recursos, pois isso está fora da estratégia de Israel. Eles apenas nos veem como consumidores de água, consumidores de segunda classe, não nos veem sequer como sócios, para pensar, sentar juntos, buscar planos conjuntos de racionamento de água. Tampouco quando há muita água fazem planos para beneficiar ambas partes. Somente nos dão o direito de consumir, e de acordo com as regras que eles impõem.

Há muitos relatos de que eles fecham poços abertos por palestinos, principalmente em áreas rurais.

Quando os palestinos querem abrir um poço, isso nunca é permitido, nunca. Sobretudo nos Aquíferos do Oeste e do Norte (veja mapa nesta página), parte do Aquífero da Montanha. Esses são dois aquíferos estratégicos, porque suprem 15% de toda água consumida em Israel. Mas todos os poços que estão dentro da Cisjordânia são controlados por Israel. No Aquífero do Oeste, eles retiram 342 milhões de metros cúbicos por ano – chegando até a 400 – e os palestinos apenas 20 milhões. Os poços que têm a permissão para serem explorados são totalmente controlados por Israel. Se os palestinos começam a tirar mais do que o permitido, os israelenses os fecham ou os destroem, com o exército. No ano passado, houve um caso em que estavam destruindo oito poços, na frente de todo mundo, quando um dos camponeses se colocou na frente e o mataram.

Há muito desperdício de água?

O que acontece é que os encanamentos que temos aqui estão velhos, em más condições e há um grande desperdício, sim. No nosso sistema, perdemos até 50%. Ou seja, pagamos por água que não utilizamos, que é desperdiçada.

Não há como reformar os canos e sistema de abastecimento para diminuir o desperdício?

Nós temos que pedir autorização para Israel para fazer qualquer reforma. Muitas vezes, eles negam. É algo que não os afetaria em nada, a única diferença é que aproveitaríamos mais a água que eles nos permitem ter. Ou seja, não mudaria a quantidade de água que eles já mandam. Só evitaria desperdício. Mas, na maioria das vezes, não nos permitem fazer consertos e reformas. Fora que pedir a autorização é um processo demorado, burocrático, que toma tempo e trabalho. Alguém pode perguntar: mas por que vocês não reformam e pronto, sem pedir autorização? Bom, para a reforma, temos que comprar um sistema novo de canos. E de onde eles vem? De Israel. Se não vem de lá, vem de fora e têm que passar pelo aeroporto, pelo litoral… e isso é controlado por Israel. Têm que passar pelo controle de fronteiras “deles” também. Se tentarmos negociar com outro país, a primeira coisa que esse país vai fazer é pedir permissão para Israel. Mesmo que esse país mandasse os equipamentos, as peças parariam no aeroporto ou no porto. E, se vem por flotilha… Ou seja, não há outra medida, não tem negociação. Isso é o controle total do sistema. E não adianta querer comprar no mercado negro e jogar gato e rato, porque eles, depois, mostram quem é o rato e quem é o gato.

Como eles controlam a água do ponto de vista técnico? Há colônias muito próximas a cidades e vilas árabes.

Primeiro, obrigam-nos a instalar canos com espessura determinada. Assim já começa a diferença entre os sistemas israelenses e palestinos, pois o diâmetro dos nossos canos é menor, como forma de se controlar a quantidade de água. Até um ponto, por onde sai a água dos israelenses, os tubos são maiores. A parte que vai para abastecimento de palestinos é mais fina. Ou colocam retentores para diminuir o fluxo, porque, às vezes, há uma colônia muito próxima a uma cidade árabe ou no meio de uma cidade árabe – como em Hebron. E só permitem que a água seja liberada uma vez a cada cinco dias. Por isso, as casas palestinas têm tantas caixas d’água para armazenar. Então, liberam um dia, e, nos outros cinco, fecham. No máximo, mandam água por dois dias, e há comunidades que recebem a cada 15 dias. Já os israelenses recebem 24 horas por dia, 365 dias ao ano, na quantidade que quiserem. As colônias dentro da Cisjordânia sequer pagam pela água. Quando você olha uma colônia, vê que não há tanques em cima dos telhados, porque não há necessidade de armazenar. Uma vez, em uma reunião, Israel propôs que os palestinos informassem a quantidade de tanques que cada família coloca nas casas. Nós conseguimos barrar isso. Nós dissemos: mas quem manda a água é vocês, já há controle, querem mais? Se deixar, controlam as pessoas dentro do banho.

mapa_água_palestina.gif

Há projetos para se gerir águas residuais ou coletar água da chuva?

A agricultura é muito prejudicada, permanentemente, por esse controle. Então, há projetos para tratar água residual, por exemplo. Mas, normalmente, exigem que a água seja tratada dentro de Israel e que nós paguemos por ela. Uma vez, tivemos um diálogo com organizações alemãs que estavam dispostas a fazer uma estação de tratamento de água residual para ser usada na agricultura. Fizemos o acordo, nós, palestinos, com os alemães. Veio Israel e disse: não, não pode. Perguntamos por que e disseram que os palestinos não eram tecnicamente e culturalmente capazes de tratar essa água. Chegamos a propor um projeto conjunto entre Palestina e Israel, numa região de fronteira. Nós coletaríamos a água residual, Israel trataria, pagaríamos e nos devolveriam a água. Mas nos disseram que não, que, se tratassem a água, pelo menos parte dela seria deles. É a mesma coisa que alguém ir em uma lavanderia e pagar para lavar uma camisa. Você chega lá e o cara está com a sua camisa e te diz: eu lavei, agora é minha. Isso não é cooperação, isso se chama roubar. Ou seja, não permitiram o acordo com os alemães, propomos uma parceria, e eles nos responderam isso. Ou seja, os palestinos recolhem a água, pagam para tratá-la e ainda a damos para eles, para as colônias, com o dinheiro dos palestinos. Se vamos fazer um projeto de dessalinização de água em Gaza, eles dizem que os palestinos não têm capacidade de administrar e exigem que a estação seja, então, de Israel, pois, assim, eles podem administrar a quantidade de água. Muitas vezes nos propusemos a isso. Mas somos capazes de fazer, ainda que com dinheiro de ajuda humanitária internacional. Não aceitam porque precisam controlar tudo, saber toda água que consumimos.

O que argumentam para dizer não?

Afirmam o de sempre: isso afeta a segurança nacional israelense. E aí não adianta perguntar: que tipo de segurança? Dizem: isso é secreto.

Acesse o especial sobre a Palestina no Brasil de Fato.
Veja entrevista com o israelense Ilan Pappe sobre a verdadeira história da invasão da Palestina
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