Contra a servidão voluntária: La Boétie

Etienne de La Boétie, filósofo amigo de Montagne, escreveu seu Discurso da servidão voluntária entre os dezesseis e os dezoito anos. Para ele a submissão de milhões de pessoas a um único homem (ele escreve no século XVII, sob a monarquia francesa) só pode ser voluntário. A ilusão do “um”, a ilusão de que um governo poderia unificar os seres humanos em uma comunidade justa e igualitária cria o outro, o poder.

Assim, nenhuma abstração, seja religião, ideologia ou agremiação leva à liberdade. Só nas relações diretas “uns com uns” é que o ser humano pode ser livre. A liberdade é para ele um estado natural, do qual nenhum ser humano se esquece, há que procurar, como Ulisses procurava sempre a fumacinha de casa.

O texto digital eu tirei daqui: http://www.consciencia.org/boetie.shtml

E confrontei com a minha bem amada edição em livro: col. Elogio da Filosofia. São Paulo: Brasiliense, 1982, pp.80-89. Transcrição de Charles Teste, tradução de Laymert Garcia dos Santos.

(…)

Em primeiro lugar creio não haver dúvida de que, se vivêssemos com que os direitos que recebemos da natureza e segundo os preceitos que ela ensina, seríamos naturalmente submissos a nossos pais, súditos da razão, mas escravos de ninguém. Quanto a saber se em nós a razão é inata ou não (questão debatida a fundo nas academias e longamente agitada nas escolas de filósofos), penso não errar, ao acreditar que em nossa alma existe um germe de razão que, reanimado pelos bons conselhos e bons exemplo, produz em nós a virtude: ao contrário, esse mesmo germe aborta abafado pelos vícios que muitas vezes advém. Mas o que é claro e evidente para todos, é que a natureza, primeiro agente de Deus, benfeitora dos homens, criou-nos do mesmo modo e, de certa maneira, verteu-nos todos na mesma fôrma, para mostrar-nos que somos iguais, ou melhor, todos irmãos. E se, na partilha que nos fez de seus dons, prodigou algumas vantagens de corpo ou de espírito a uns mais que aos outros, entretanto nunca pôde querer colocar-nos neste mundo como num campo cerrado e não mandou para cá os mais fortes e os mais hábeis como bandidos armados numa floresta, para atacar os mais fracos. Antes, é de se crer que, atribuindo assim as partes – a uns maiores, aos outros as menores -, quis fazer nascer neles a afeição fraternal e colocá-los em condições de praticá-la, tendo uns o poderio de dar socorro e os outros necessidade de recebê-los. Em suma, posto que essa boa mãe deu-nos a todos a terra inteira por morada, alojou-nos todos debaixo do mesmo grande teto, e amassou-nos todos na mesma massa para que, com num espelho, pudesse reconhecer-se em seu vizinho; se nos deu a todos o belo presente da voz e da fala para que nos abordássemos e confraternizássemos, e através da comunicação e da troca de nossos pensamentos fôssemos levados à comunidade de idéias e de vontades; se procurou por todos os meios formar e estreitar o nó de nossas aliança, os vínculos de nossas sociedade; se, enfim, mostrou em todas as coisas o desejo que fôssemos não só unidos mas, juntos, fizéssemos por assim dizer um só ser – pode-se então duvidar um só instante de que sejamos todos iguais? e pode entrar no espírito de alguém que ela tenha querido alguns em escravidão, tendo nos postos todos na mesma companhia?

Mas em verdade não vale a pena discutir para saber se a liberdade é natural, pois nenhum ser pode ser mantido em servidão sem que ressinta um dano grave, e no mundo nada é mais contrário à natureza (cheia de razão) que a injustiça. O que dizer ainda? Que a liberdade é natural e que, em meu entender, não só nascemos com nossa liberdade como também com a vontade de defendê-la- E se por acaso houver quem ainda duvide e esteja tão abastardado a ponto de desconhecer os bens e as afeições inatas que lhe são próprios, é preciso que lhe faça a honra que merece e, por assim dizer, alce os bichos ao púlpito para ensinar-lhe sua natureza e condição. Os bichos (valha-me Deus!), se os homens quiserem compreendê-los, gritam-lhes: Viva  liberdade! Vários deles morrem logo que são capturados. Como o peixe, que perde a vida quando o retiram da água, se deixam morrer para não sobreviverem à sua liberdade natural (se os animais tivessem entre si as categorias e preeminências, em meu entender, fariam da liberdade sua nobreza). Outros, dos maiores aos menorzinhos, quando são capturados, resistem tanto com as unhas, os chifres, os pés e o bico que por aí demonstram bastante seu apreço ao bem que lhes roubam. Uma vez capturados, dão-nos tantos sinais aparentes do sentimento de seu infortúnio, que é bonito vê-los desde então languir em vez de viver, não se comprazendo nunca na servidão e lamentando continuamente a privação de sua liberdade. Com efeito, o que significa a ação do elefante -que tendo se defendido até o limite, sem esperança, na iminência de ser capturado, bate sua mandíbula e quebra os dentes contra as árvores – senão que, inspirado pelo grande desejo de permanecer livre como é por natureza, concebe a idéia de negociar com os caçadores para ver se poderá libertar-se a troco de seus dentes; se deixando como resgate seu marfim, recobrará sua liberdade. E o cavalo! desde que nasce o preparamos para que obedeça; e no entanto nossos cuidados e carinhos não impedem que morda o freio quando queremos domá-lo, que escoicei quando o esporeamos; naturalmente querendo indicar desta maneira (parece-me) que se serve não é de bom grado, mas por imposição. O que diremos ainda?… Os próprios bois gemem sob o jugo, e os pássaros choram na gaiola. Como disse outrora em rima, nos meus instantes de lazer.

Em suma, se todo ser que tem o sentimento de sua existência sente o infortúnio da sujeição e procura a liberdade, se os bichos, até os criados para o serviço do homem, só podem se submeter depois de protestarem um desejo contrário -que vício infeliz pode então desnaturar o homem, o único que realmente nasceu para viver livre, a ponto de fazê-lo perder a lembrança de sua primeira condição e o próprio desejo de retomá-la?

Há três tipos de tirano. Falo dos maus Príncipes. Uns possuem o Reino por eleição do povo, outros pela força das armas e outros por sucessão da raça. Os que o adquiriram pelo direito de guerra comportam-se nele como em uma terra conquistada, com se bem sabe e se diz, com razão. Comumente, os que nascem reis não são melhores; nascidos e criados no seio da tirania, sugam com o leite o natural do tirano, consideram os povos a eles submetidos como seus servos hereditários; e segundo a tendência a que estão mais inclinados, avaros ou pródigos, se utilizam do Reino como de sua própria herança. Quanto àquele cujo poder vem do povo, parece que deveria ser mais suportável, e creio que o seria, desde que se visse a lugar tão alto, acima do todos os outros, lisonjeado por um não sei quê que chamam de grandeza, não tomasse a firme resolução de não descer mais. Quase sempre considera o poderio que lhe foi confiado pelo povo como se devesse ser transmitido a seus filhos. Ora, quando eles e ele conceberam esta idéia funesta, é realmente estranho ver como superam todos os outros tiranos em vícios  de todo tipo e até em crueldades. Não encontram melhor maneira de consolidar sua nova tirania senão aumentando a servidão e afastando tanto as idéias de liberdade do espírito de seus súditos que, por mais recente que seja a sua lembrança, logo ela se apaga inteiramente de sua memória. Assim, para dizer a verdade, vejo bem alguma diferença entre estes tiranos, mas não que se possa fazer uma escolha: pois se chegam ao trono por caminhos diversos, sua maneira de reinar é quase sempre a mesma. Os escolhidos pelo povo tratam-no como um touro a ser domado; os conquistadores, como uma presa sobre a qual tem todos os direitos; os sucessores como um rebanho de escravos, que naturalmente, lhes pertence.

A propósito, perguntaria: se o acaso quisesse que hoje nascesse alguma gente inteiramente nova, que não estivesse acostumada com a sujeição nem atraída pela liberdade, que até os nomes de uma e de outra ignorasse, e a quem oferecesse a opção entre ser sujeitos  ou viver livre, qual seria a sua escolha? Ninguém duvida de que prefeririam obedecer apenas à sua razão em vez de servir a um homem, a menos que fossem como os judeus de Israel que, sem motivos nem coerção alguma, deram a si mesmo um tirano, e cuja história nunca leio sem sentir uma extrema indignação que quase me levaria a ser desumano para com eles, a rejubilar-me com todos os males que depois lhes sucederam. Pois, para que os homens, enquanto neles resta vestígios de homem, se deixem sujeitar, é preciso uma das duas coisas: que sejam forçados ou iludidos; forçados pelas armas estrangeiras, como Esparta e Atenas o foram por Alexandre: ou pelas facções, como quando, muito antes deste tempo o governo de Atenas caiu nas mãos de Pisístrato. Iludidos, eles também perderam a liberdade; mas então, menos freqüentemente pela sedução de outrem do que por sua própria cegueira. Como o povo de Siracusa (outrora capital de Sicília), que assediado de todos os lados por inimigos, pensando apenas no perigo do momento e não prevendo o futuro, elegeu Dionísio I e entregou-lhe o comando geral do exército. O povo só percebeu que o tornara tão poderoso quando este hábil patife, retornando vitorioso à cidade, primeiro se fez capitão rei, e em seguida tirano, como se tivesse vencido seus concidadãos em vez de seus inimigos. Não se poderia imaginar até que ponto um povo, sujeitado assim pela patifaria de um traidor, cai no aviltamento e, mesmo, em um esquecimento tão profundo de todos os seus direitos, que é quase impossível acordá-lo de seu torpor para reconquistá-lo; servindo tão bem e de tão bom grado, que, ao considerá-lo, dir-se-ia que não perdeu apenas sua liberdade, mas também sua própria servidão, para se entorpecer na mais embrutecedora escravidão. É verdadeiro dizer que no início serve-se contra a vontade e à força; mais tarde acostuma-se, e os que vem depois, nunca tendo conhecido a liberdade, nem mesmo sabendo o que é, servem sem pesar e fazem voluntariamente o que seus pais só haviam feito por imposição. Assim, os homens que nascem sob o jugo, alimentados e criados na servidão, sem olhar mais longe, contentam-se em viver como nasceram; e como não pensam ter outros direitos nem outros bens além dos que encontram em sua entrada na vida, consideram como sua condição natural  a própria condição de seu nascimento. No entanto, por mais pródigo e despreocupado que seja, não há herdeiro que um dia não ponha os olhos em seus registros para ver se goza de todos os direitos de sua herança e verificar se não usurparam os seus ou os de seus predecessores. Entretanto, o hábito, que e todas as coisas exerce um império tão grande sobre todas as nossas ações, tem principalmente o poder de ensinar-nos a servir: é ele que, a longo prazo (como nos contam de Mitridades, que acabou habituando-se ao veneno), consegue fazer-nos engolir, sem repugnância, a amarga peçonha da servidão. Não há dúvida de que, inicialmente, é  a natureza que nos dirige  segundo as tendências boas ou más que nos deu; mas também é preciso concordar que ela tem ainda menos poder sobre nós do que o hábito; pois, por melhor que seja, o natural se perde se não é cultivado, enquanto o hábito nos conforma à sua maneira, apesar de nossas tendências  naturais. As sementes do bem que a natureza põe em nós são tão frágeis e finas que não podem resistir ao menor choque das paixões nem à influência de uma educação que as contraria. Não se conservam bem, abastardam-se tão facilmente e até degeneram, como ocorre a essas árvores frutíferas que, tendo sua própria espécie, conservam-se enquanto as deixam crescer naturalmente; mas perdem-na para dar frutos completamente diferentes, logo que as enxertaram. As ervas também tem, cada uma, sua propriedade, seu natural, sua singularidade; mas no entanto, o frio, o tempo, o terreno ou a mão do jardineiro sempre deterioram ou melhoram sua qualidade; freqüentemente a planta que se viu em um país não é reconhecível em um outro. Aquele que visse em sua terra os Venezianos- punhado de gente que vive tão livremente que o mais infeliz  dentre eles não almejaria ser rei, e todos nascidos e criados desta forma, não conhecem outra ambição senão a de vigiar ao máximo a manutenção de sua liberdade; de tal modo ensinados e formados desde o berço que não trocariam uma migalha de sua liberdade por todas as outras felicidades humanas – quem visse, digo, esses homens e em seguida, deixando-os, fosse aos domínios daquele que chamamos grão-senhor, ao encontrar ali pessoas que só nasceram para servir e que dedicam a vida toda ao poderio dele, pensaria que esses dois povos são da mesma natureza? Ou, em vez disso, acreditaria que, tendo saído de uma cidade de homens, entrou num parque de bichos? Contam que Licurgo, legislador de Esparta, criara dois cães, ambos irmãos, ambos amamentados com o mesmo leite, e os habituara, um na cozinha doméstica e o outro correndo pelos campos, ao som da trompa e do cornetim. Querendo mostrar aos Lacedemônios a influência da educação sobre o natural, expôs os dois cães na praça pública e colocou entre eles uma sopa e uma lebre. Vede, disse ele, e no entanto são irmãos! O legislador soube dar tão boa educação aos Lacedemônios, que cada um deles teria preferido sofrer mil mortes a submeter-se a um senhor ou reconhecer outras instituições que as de Esparta.

Sinto certo prazer ao lembrar aqui um dito dos favoritos de Xerxes, o grande rei da Pérsia, a respeito dos Espartanos: quando Xerxes fazia seus preparativos de guerra para dominar a Grécia inteira, enviou seus embaixadores a várias cidades do país pedindo água e terra (fórmula simbólica que os Persas empregavam para intimar as cidades a se renderem), mas evitou mandá-los a Esparta e Atenas, porque os Espartanos e os Atenienses – aos quais seu pai Dario já havia mandado fazer pedido semelhante – os tinham lançado uns nos fossos, outros em um poço, dizendo-lhes: “Pegai valentemente aí água e terra e levai ao vosso príncipe”.  Com efeito, esses orgulhosos republicanos não podiam admitir que se atentasse contra sua liberdade, nem mesmo através da fala. Entretanto, por terem agido deste modo, os Espartanos reconheceram que haviam ofendido seus deuses e sobretudo Taltíbio, deus dos arautos. Resolveram então, para apaziguá-los, enviar a Xerxes dois de seus concidadãos para que, dispondo deles à vontade, pudesse vingar em suas pessoas a morte dos embaixadores de seus pais. Dois Espartanos, um chamado Espértias e o outro Búlis, se ofereceram como vítimas voluntárias. Partiram. Chegando ao palácio de um Persa chamado Hidarnes, comandante do rei para todas as cidades da Ásia que se situavam à beira-mar; este os recebeu com honrarias, e depois de vários outros discursos, perguntou-lhes porque rejeitavam tão  orgulhosamente a amizade do Grande rei. “Vede, por meu exemplo, acrescentou, como o Rei sabe recompensar os que merecem, e acreditai que, se estivésseis a seu serviço e se ele vos tivesse conhecido, seríeis ambos governantes de alguma cidade grega”. “Quanto a isso, Hidarnes, não poderia dar-nos bom conselho – responderam os dois Lacedemônios; pois se provaste a felicidade que nos prometes, ignoras inteiramente a de que gozamos. Conheceste o favor de um rei mas não sabes como é doce a liberdade, nada sabes da alegria que ela proporciona. Oh! se tivesses apenas uma idéias, aconselhar-nos-ia a defendê-la, não só com a lança e com o escudo, mas com as unhas e os dentes.” Só os Espartanos diziam a verdade; mas aqui cada um falava conforme a educação que havia recebido. Pois era impossível que o Persa lamentasse a liberdade de que jamais gozara e os Lacedemônios, ao contrário, tendo saboreado a doce liberdade, nem mesmo concebiam que se pudesse viver na escravidão.

Catão de Útica, ainda criança e sob a férula do mestre, ia com freqüência visitar o ditador Sila, em casa de quem entrava livremente, tanto por causa da posição de sua família quanto dos laços de parentesco que os uniam. Nessas visitas, era sempre acompanhado por seu preceptor, como era costume em Roma para os filhos dos nobres daquele tempo. Um dia viu que na própria casa de Sila, em sua presença ou por ordem sua, prendiam-se uns, condenavam-se outros; um era banido, o outro estrangulado; um propunha o confisco dos bens de um cidadão, o outro pedia sua cabeça. Em suma, tudo se passava ali como se fosse não a casa de um magistrado da cidade, mas a de um tirano do povo; e era muito menos o santuário que uma caverna de tirania. A nobre criança disse ao seu preceptor: “Por que  não me dais um punhal? Eu o esconderei sob minha toga. Entro com freqüência no quarto de Sila antes dele se levantar.. .tenho o braço bastante forte para livrar a república dele.” Eis aí realmente o pensamento de um Catão; esse era, com efeito, o início de uma vida tão digna de sua morte. E, no entanto, calai o nome e o país, contai o fato somente como é -ele fala por si mesmo – e imediatamente dir-se-á: essa criança era Romana, nascida em Roma, na Roma verdadeira, e quando ela era livre. Por que digo isso? Por certo não pretendo que o país e o solo aperfeiçoem nada, pois em toda parte e em todos os lugares a escravidão é odiosa para os homens e a liberdade lhes é cara; mas porque parece-me que se deve deve ter compaixão por aqueles que, ao nascerem, já sem encontram sob o jugo; que se deve desculpá-los ou perdoá-los se não ressentem o infortúnio de serem escravos, pois jamais viram a própria sombra da liberdade e nunca ouviram falar dela. Com efeito (como diz Homero dos Cimérios), se há países onde o sol se mostra de modo inteiramente diferente do que a nós e depois de tê-los iluminados durante seis meses consecutivos deixa-os na escuridão nos outros seis meses, seria espantoso que os que nascessem na longa noite, se não tivessem ouvido falar na claridade nem jamais  visto o dia, se acostumassem às trevas em que nasceram e não desejassem a luz? Jamais se lamenta o que nunca se teve; o desgosto só vem depois do prazer e ao conhecimento do bem somente se junta a lembrança de alguma alegria passada. É da natureza do homem ser livre e querer sê-lo; mas muito facilmente toma uma outra feição, quando dada pela educação.

Digamos, então, que se todas as coisas que o homem se acostuma e  se molda tornam-se naturais, entretanto, só ele permanece em sua natureza, que se habitua apenas às coisas simples e inalteradas; assim a primeira razão da servidão voluntária é o hábito; como ocorre com os mais bravos courtauds, que de início mordem o freio e depois descuram; que há pouco escoiceavam sob a sela e agora se apresentam por si mesmo sob os arreios brilhantes e, soberbos, empertigam-se e se empavoneiam sob a armadura que os cobre. Eles dizem que sempre foram sujeitos, que seus pais viveram assim. Pensam que são obrigados a suportar o freio, convencem-se com exemplos, e através do tempo eles mesmos consolidam a posse dos que o tiranizam. Mas os anos dão o direito de malfazer?  E a injúria prolongada não é uma injúria maior? Sempre há alguns que, mais orgulhosos e inspirados que outros, sentem o peso do jugo e não podem se impedir de sacudi-lo; que jamais se submetem à sujeição e que sempre e incessantemente (como Ulisses, por terra e mar procurando rever a fumaça de sua casa) pretendem não esquecer seus direitos naturais,  e esforçam-se por reinvidicá-los a cada oportunidade. Esses, tendo entendimento nítido e espírito clarividente, não se contentam, como os ignorantes empedernidos, em ver o que está a seus pés sem olhar para trás e para frente; ao contrário, lembram as coisas passadas para julgar mais sadiamente o presente e prever o futuro. São esses que, tendo o espírito por si mesmos correto, ainda o retificaram através do estudo e do saber. Estes, mesmo que a liberdade estivesse inteiramente perdida e banida deste mundo, reconduzi-lo-iam a ela; pois, sentindo-a vivamente, tendo-a saboreado e conservando-lhe o germe em seu espírito, jamais a servidão poderia seduzi-los, por mais que estivesse vestida.

Anúncios

Sobre CCBregaMim

Classe média. Não sai da gente. Mas melhora, se a gente estiver disposta a abandonar nosso lugar na opressão.
Esse post foi publicado em MANIFESTO, MEMÓRIA e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Contra a servidão voluntária: La Boétie

  1. serve-me e serás servido. – maçonaria básica. pirâmide. opressão.

    segue-me e terás seguidores. – opz.. será o tuilti?.. horda faminta. dia do gafanhoto.

    ..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s