Tendenciosidade da Folha aparece na linguagem

Quinta, 2 de setembro de 2010, 08h16
Não é possível decidir voto com base nas propagandas
Sírio Possenti
De Campinas (SP) No Terra

Perseguição

A Folha de S. Paulo fez editorial sobre as relações tensas entre o governo argentino e a imprensa, especialmente o Clarín. Não tenho elementos para emitir opinião sobre a briga. E sempre posso duvidar do que leio e ouço na mídia.

Parêntese: Ouvi uma breve e interessante análise de Eugênio Bucci sobre a questão, em um canal de TV. Em primeiro lugar, ele ressaltou, jornais como esse estiveram desde sempre associados às elites e, em momentos de transformação social, o imaginário popular, que pode bem estar com a verdade, ainda considera fortemente aquela associação (basta ver que no Brasil, por exemplo, todos os jornais defenderam o golpe de 64 até se tornarem suas vítimas – o que, às vezes, demorou!). A segunda observação de Bucci é que, especialmente na Venezuela, há de fato tentativas de controle da mídia pelo governo. Em seguida, acrescentou que nenhum governo deve ser ombudsman da imprensa. Gostei da fórmula e concordo com ela, mas concordaria com mais facilidade se nossas leis proibissem, como em países mais democráticos, certas concentrações. Com uma lei como a americana, por exemplo, a Globo não poderia ter ao mesmo tempo jornais e canais de TV. Teria que escolher.

O que mais chamou atenção no editorial da Folha foi esta passagem: “A perseguição (sic!!) chegou à esfera pessoal. O Congresso tornou compulsórios exames de DNA em casos que envolvem supostas ligações com o regime militar. O diploma foi concebido para testar a hipótese de que os filhos da dona do jornal foram seqüestrados de presos políticos quando bebês”.

Perseguição? Quer dizer que tentar descobrir se a dona do jornal sequestrou crianças, filhos pequenos de presos políticos da ditadura, é perseguição? E o que foi – se a hipótese se confirmar – “adotar” essas crianças na marra? Um ato de humanidade, Democracia? Defesa dos direitos humanos? Eu acho que foi crime dos grossos.

O emprego dessa palavra – perseguição – é sintoma da posição da Folha sobre casos assim. Posição absolutamente coerente com a famosa qualificação de ditadura brasileira de “ditabranda”.

***

Trabalho

Não sei quem redige os textos que candidatos ou locutores lêem nos programas eleitorais. Quando vejo esses programas, é para bisbilhotar detalhes, não para decidir voto, assim como não decido comprar nada com base em propagandas; como disse o caipira ao motorista de ônibus: “se fosse pra obedecer propaganda, eu vinha tomando coca-cola desde o começo da viagem”.

Dia desses, trecho da propaganda do Serra era mais ou menos assim: aparecia um hospital, depois um esqueleto de hospital, e, no fim, de novo o hospital. O texto informava que quando Serra assumiu, o hospital era só um esqueleto; aí o Serra trabalhou (sic!), e o resultado é esse aí.

Está certo que ele trabalha (como todo mundo, aliás, cada um na sua). Mas dizer que “aí ele trabalhou” foi demais.

Aproveito a chance e informo que recebi uma propaganda por e-mail. O “assunto” era “propostaserra” (não vou publicar o endereço; sou um cara educado). Pediam-se sugestões. Dei duas: a) em vez de colocar dois professores em cada sala de aula, diminuir o número de alunos em cada uma; b) informar, durante o programa eleitoral, em que condições o candidato se aposentou na Unicamp (12 mil por mês, segundo informou há algum tempo Mônica Bérgamo, sem nunca ter sido desmentida).

Depois vi que os e-mails que enviei retornaram. Ou seja, invadem meu e-mail e nem é para valer. Não é para receber sugestões, como diz a mensagem. Também queria saber como descobriram meu endereço (que não é este da coluna). Será que foi na Receita lá em Mauá?

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.


Fale com Sírio Possenti: siriopossenti@terra.com.br

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Sobre CCBregaMim

Classe média. Não sai da gente. Mas melhora, se a gente estiver disposta a abandonar nosso lugar na opressão.
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