tudo sobre a OTAN e a Líbia

De: Grupo Beatrice

Por que Gaddafi recebeu cartão vermelho – Pepe Escobar -&- Documentos secretos revelam relações carnais com Gaddafi –

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From: Vila Vudu

(versão corrigida)

Por que Gaddafi recebeu cartão vermelho
1/9/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/MI01Ak02.html
Observando a Líbia devastada, num gabinete aconchegante recheado de televisões de plasma mais fininhas que panqueca, num palácio em Pyongyang, o Amado Líder da República Popular Democrática da Coreia, Kim Jong-il, balançava a cabeça, pensando no suplício do coronel Muammar Gaddafi.
“Grande tolo”, murmura o Amado Líder. Claro. Ele sabe por que o Grande Gaddafi assinou virtualmente a própria sentença de morte, num dia em 2003, quando aceitou a sugestão daquela sua lamentável prole – arrogantemente europeizados –, para que cancelasse seu programa de armas de destruição em massa e quando, no mesmo ato, pôs o futuro de seu governo nas mãos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Sim. Saif al-Islam, Mutassim, Khamis e o resto do clã Gaddafi ainda não conheciam a diferença entre detonar em farra barra-pesadíssima em St. Tropez e ser detonado por Mirages e Rafales. O Grande Gaddafi, esteja onde estiver, em Sirte, no deserto central ou numa silenciosa caravana para a Argélia, com certeza os está amaldiçoando para toda a eternidade.
Gaddafi supunha que fosse parceiro da OTAN. Agora, a OTAN quer arrancar-lhe a cabeça. Que parceria é essa?
O monarca sunita ditador permanece no Bahrain; nada de bombas “humanitárias” sobre Manama, nada de recompensa por sua cabeça. O clube de ditadores da Casa de Saud permanece; nada de bombas “humanitárias” sobre Riad, Dubai ou Doha – nada de recompensa por aquelas cabeças coroadas apaixonadas pelo ocidente. Estão pegando bem leve até com o ditador sírio – pelo menos por enquanto.
Portanto, a pergunta, levantada por vários leitores de Asia Times Online, é inevitável: qual a linha vermelha crucial que Gaddafi transgrediu, transgressão que lhe valeu o cartão vermelho?
‘Revolução’ made in France
 
Há tantas linhas vermelhas transgredidas pelo Grande Gaddafi – e tantos cartões vermelhos – que a tela do computador acabaria tingida de vermelho sangue.
Comecemos pelo básico. É coisa dos franceses. Vale a pena repetir: a guerra na Líbia é guerra francesa. Os americanos nem chamam a guerra na Líbia, de guerra: é só “ação cinética”, ou coisa que o valha. O Conselho Nacional de Transição ‘rebelde’ é invenção francesa.
E, sim, sim – sobretudo é guerra do neonapoleônico presidente Nicolas Sarkozy. Sarkozy é o George Clooney do filme (coitado do Clooney). Todos os demais, de David das Arábias Cameron, ao ganhador do Prêmio Nobel da Paz e inventador emérito de guerras Barack Obama, são coadjuvantes.
Como o Asia Times Online noticiou, a guerra da Líbia começou em outubro de 2010, quando o chefe de protocolo de Gaddafi, Nuri Mesmari, desertou e voou para Paris. Ali foi contatado pela inteligência francesa e, para todas as finalidades práticas, construíram um coup d’état militar, envolvendo desertores na Cyrenaica.
Sarkô tem uma mala de motivos para desejar vingar-se do Grande Gaddafi.
Bancos franceses contaram-lhe que Gaddafi preparava-se para transferir seus bilhões de euros para bancos chineses. E Gaddafi não podia, de modo algum, servir de exemplo para outras nações ou fundos soberanos árabes.
Empresas francesas contaram a Sarkô que Gaddafi decidira não comprar aviões Rafale e não contratar franceses para construírem uma usina nuclear; preferia investir em serviços sociais.
A gigante francesa de energia Total queria fatia maior do bolo energético líbio – que estava sendo devorado, do lado europeu, pela italiana ENI, sobretudo porque o premiê Silvio “bunga bunga” Berlusconi, fã de carteirinha do Grande Gaddafi, já tinha acertado negócio complexo com  Gaddafi.
Assim, o golpe militar foi aperfeiçoado em Paris, até dezembro; as primeiras manifestações populares na Cyrenaica em fevereiro – instigadas em larga medida pelos golpistas – foram capturadas. O filósofo da autopromoção Bernard Henri-Levy meteu num avião para Benghazi a sua camisa branca aberta no peito e foi encontrar-se com os “rebeldes”, de onde telefonou para Sarkozy e virtualmente ordenou que reconhecesse os tais “rebeldes”, já no início de março, como ‘governo legítimo’ (como se Sarkô carecesse de estímulos).
O Conselho Nacional de Transição foi inventado em Paris, mas a ONU também providenciou para inflá-lo como “legítimo” governo da Líbia. E a OTAN, que não tinha mandado da ONU para converter uma zona aérea de exclusão em bombardeio “humanitário” indiscriminado. Tudo isso culmina hoje no cerco da cidade de Sirte.
Os franceses e os britânicos redigiram o que viria a ser a Resolução n. 1.973 da ONU. Washington uniu-se alegremente ao convescote. O Departamento de Estado dos EUA combinou um negócio com a Casa de Saud, pelo qual os sauditas assegurariam um voto da Liga Árabe, como prelúdio à resolução da ONU; em troca, os sauditas seriam deixados em paz para reprimir qualquer protesto pró-democracia no Golfo Persa – o que os sauditas fizeram, com selvageria, no Bahrain.
O Conselho de Cooperação do Golfo (então convertido em Clube Contrarrevolucionário do Golfo) também tinha toneladas de razões para querer livrar-se de Gaddafi. Os sauditas adorarão acomodar um emirado amigo no norte da África, sobretudo se, simultaneamente, se livrarem da furiosa animosidade que separa Gaddafi e o rei Abdullah. Os Emirados querem novo local para investir e “desenvolver”. O Qatar, muito íntimo de Sarkô, queria fazer dinheiro – gerindo os novos negócios de venda de petróleo dos “legítimos” ‘rebeldes’.
A secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton pode até ser muito amiga da Casa de Saud ou dos al-Khalifas assassinos no Bahrain. Mas o Departamento de Estado também vergastou Gaddafi pesadamente por suas “políticas cada vez mais nacionalistas no setor energético”; e, também, por estar “libianizando” a economia.
O Grande Gaddafi, jogador esperto, deveria ter visto o escrito no muro. Desde que o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh foi deposto essencialmente pela CIA no Irã em 1953, a regra é que ninguém se mete a antagonizar o Big Oil globalizado. Para nem falar de antagonizar o sistema financeiro/banqueiro internacional – promovendo ideias subversivas como usar a economia nacional em benefício da população local.
Quem seja pró-o-próprio-país é automaticamente inimigo dos que mandam – bancos ocidentais, megacorporações, “investidores” nebulosos à caça de lucrar com qualquer coisa que cada país produza.
Gaddafi não só atropelou todos esses limites como também tentou escapar do petrodólar: tentou vender à África a ideia de uma moeda unificada, o dinar de ouro (foi apoiado por muitos países africanos); investiu num projeto multibilionário – o Grande Rio Feito pelo Homem, uma rede de dutos que bombeiam água potável do deserto para a costa mediterrânea –, sem, para isso, ter de ajoelhar ante o altar do Banco Mundial; investiu em programas sociais nos países subsaharianos mais pobres; financiou o Banco da África, com o que tornou possível, para muitos países, também escapar das garras do Banco Mundial e, principalmente, do Fundo Monetário Internacional; financiou um sistema de telecomunicações para todo o continente africano, graças ao qual escapou das redes ocidentais de telecomunicações; e ofereceu aos líbios excelente padrão de vida. A lista dos pecados de Gaddafi é infinita.

Por que não telefono para Pyongyang

E há ainda o ângulo militar crucialmente importante do Pentágono/Africom/OTAN. Nenhum país africano quis receber uma base do Comando Africano (Africom) do Pentágono. O Africom foi inventado no governo George W Bush, como meio para controlar de perto a África e para combater, escondido, os avanços comerciais da China.
Dado que ninguém quis acolher o Africom na África, o Africom escolheu local super africano: Stuttgart, na Alemanha.
A tinta em que se escreveu a Resolução n. 1.973 ainda nem secara, e o Africom, de fato, já estava bombardeando a Líbia com mais de 150 Tomahawks – antes de o comando das operações ser transferido para a OTAN. Foi a primeira guerra africana do Africom, e prelúdio do que virá. Fixar uma base permanente na Líbia é negócio já praticamente resolvido – parte da militarização neocolonial, não só do norte da África mas de todo o continente.
A agenda da OTAN para dominar todo o Mediterrâneo e convertê-lo em lago da OTAN, é tão definida quando a agenda do Africom para converter-se em Robocop da África. Os únicos pontos difíceis eram a Líbia, a Síria e o Líbano – três países que não são membros da OTAN nem ligados à OTAN por qualquer tipo de “parceria”.
Para compreender o papel de Robocop global que a OTAN aspira a desempenhar – legitimado pela ONU –, basta prestar atenção à boca dura do secretário-geral da OTAN general Anders Fogh Rasmussen. Trípoli ainda estava sendo bombardeada, quando ele disse que “Quem não consiga manter tropas além das próprias fronteiras não terá influência internacional, e o vácuo será ocupado por potências emergentes que não necessariamente partilham nosso pensamento e nossos valores”.[1]
Portanto aí está, tudo dito. A OTAN é uma milícia high-tech ocidental para defender interesses dos EUA e de países europeus e isolar os BRICS emergentes e outros, e para manter curvados os “nativos”, sejam africanos ou asiáticos. O negócio fica mais fácil, porque a coisa está fantasiada de R2P – “responsabilidade de proteger”, não os civis, mas o saque subsequente.
Jogando contra todas essas forças, não surpreende que o Grande Gaddafi tenha recebido cartão vermelho, expulso do jogo para sempre.
Poucas horas antes de o Grande Gaddafi ter de começar a lutar pela própria vida, o Amado Líder bebericava champanhe russa com o presidente Dmitry Medvedev, trocando ideias sobre o gambito em curso no Oleodutostão. Lembrou, por acaso, que gostaria de conversar sobre seu arsenal nuclear ainda ativo.

Aí está o motivo pelo qual o Amado Líder sobe, enquanto o Grande Gaddafi despenca.

[1] Wall Street Journal, 24/8/2011, em http://online.wsj.com/article/SB10001424053111903461304576524503625829970.html  

Independent: Documentos secretos revelam relações carnais com Gaddafi
As cartas secretas de Moussa Koussa mostram conexão líbia com o Reino Unido
Mensagens encontradas em seu escritório mostram como o MI6 [serviço secreto de inteligência] deu detalhes sobre dissidentes no exílio a Gaddafi — e como a CIA usou o regime para ‘rendição extraordinária’
por Portia Walker e Kim Sengupta em Trípoli

Saturday, 3 September 2011, no jornal britânico Independent
Arquivos secretos descobertos pelo Independent em Trípoli revelam que ligações espantosamente próximas existiam entre os governos britânico, norte-americano e o de Muammar Gaddafi.
Os documentos mostram como prisioneiros foram oferecidos para interrogatórios brutais pelo regime de Trípoli sob o altamente controverso programa de ‘rendição extraordinária’ e também como informações sobre opositores do ditador líbio exilados no Reino Unido foram repassadas ao regime pelo MI6.
Os papéis mostram que autoridades britânicas ajudaram a escrever o rascunho de um discurso do coronel Gaddafi quando ele tentava reabilitar seu regime do status de pária, no qual mergulhou depois do apoio dado a movimentos terroristas. Outros documentos revelam que os Estados Unidos e o Reino Unido agiram em nome da Líbia para conduzir negociações com a Agência Internacional de Energia Atômica.
Nas tentativas que tinham implementado de cultivar seus contatos com o regime, os britânicos algumas vezes não estavam dispostos a dividir sua “conexão líbia” com os aliados mais próximos, os Estados Unidos. Numa carta a um colega do serviço de inteligência líbio, um oficial do MI6 descreveu como tinha se negado a informar a identidade de um agente a Washington.
Os documentos, muitos dos quais tem implicações incendiárias, foram encontrados no escritório particular de Moussa Koussa, o braço direito do coronel Gaddafi e chefe do serviço de segurança, que se exilou no Reino Unido nos dias seguintes ao início da revolução de fevereiro na Líbia.
Os papéis revelam detalhes sobre a visita de Tony Blair ao ditador líbio em Trípoli — foi o escritório do primeiro-ministro britânico que requisitou que o encontro acontecesse em uma tenda. Uma carta de um oficial do MI6 ao sr. Koussa diz que “o número 10 [em referência ao endereço do primeiro-ministro britânico, 10 Downing Street, em Londres] quer que o primeiro-ministro encontre o Líder em uma tenda. Eu não sei porque os ingleses são fascinados por tendas. O fato é que os jornalistas adorariam”.
Os documentos levantam questões sobre o relacionamento entre Moussa Koussa e o governo britânico e sobre os eventos que se seguiram ao exílio dele. A chegada surpreendente do sr. Koussa ao Reino Unido provocou pedidos para que ele fosse interrogado pela polícia sobre seu envolvimento em assassinatos no Exterior praticados pelo regime líbio, inclusive a de uma policial, Yvonne Fletcher, e de oponentes de Gaddafi.
Koussa também estaria envolvido no envio de armas para o IRA [Irish Republican Army, grupo armado que enfrentou os britânicos na Irlanda]. Na época do exílio, o governo de David Cameron garantiu ao público que o sr. Koussa poderia ser processado. Em vez disso, ele recebeu autorização para deixar o Reino Unido e agora se acredita que esteja em um dos países do Golfo [Pérsico].
As revelações do Independent vão despertar perguntas sobre se o sr. Koussa, que há muito era acusado de abusos dos Direitos Humanos, foi autorizado a escapar porque tinha provas constrangedoras [‘smoking gun’]. O sr. Koussa copiou e levou com ele dezenas de arquivos, quando deixou a Líbia.
Os papéis ilustram as relações íntimas do sr. Koussa e de alguns colegas dele com a inteligência britânica. Cartas e faxes eram enviados a ele com ‘Saudações do MI6′ e ‘Saudações do SIS’, felicitações natalinas, numa ocasião, ‘De seu amigo’, seguido pelo nome de um oficial de inteligência britânico, além de lamentações sobre encontros que não deram certo. Houve também uma regular troca de presentes: em uma ocasião um agente líbio chegou a Londres carregado de figos e laranjas.
Os documentos repetidamente tratam de um florescente relacionamento entre as agencias de inteligência ocidentais e a Líbia. Mas havia um custo humano. O regime de Trípoli era um parceiro altamente útil no processo de ‘rendição extraordinária’ sob o qual prisioneiros eram mandados pelos Estados Unidos para ‘interrogatórios reforçados’, um eufemismo, dizem os grupos de defesa dos Direitos Humanos, para tortura.
Um documento do governo dos Estados Unidos, marcado ’secreto’, diz “nosso serviço está em condições de entregar Shaykh Musa para sua custódia física de forma similar ao que fizemos com outros líderes-sênior do LIFG (Grupo Líbio de Luta Islâmica) no passado. Nós respeitosamente pedimos a expressão de seu interesse em assumir a custódia do sr. Musa”.
Os britânicos também estavam tratando com os líbios sobre ativistas de oposição a Gaddafi, passando informações ao regime líbio. Isso acontecia apesar do fato de que agentes do coronel Gaddafi tinham assassinado oponentes na campanha para eliminar os assim chamados ‘viralatas’ no Exterior, inclusive nas ruas de Londres. Os assassinatos tinham, na época, levado a protestos e condenações por parte do governo do Reino Unido.
Uma carta datada de 16 de abril de 2005 do serviço de inteligência britânico para uma autoridade do Departamento de Relações Internacionais da segurança líbia diz: “Desejamos informá-lo que Ismail KAMOKA @ SUHAIB (possivelmente se referindo a um apelido) foi solto em 18 de março de 2004. Um painel de juizes britânicos decidiu que KAMOKA não era uma ameaça à segurança nacional no Reino Unido e subsequentemente decidiu soltá-lo. Estamos solicitando que você informe (um oficial da inteligência líbia) sobre a soltura de KAMOMA”.
Ironicamente, os rebeldes líbios que chegaram ao poder depois de derrubar o coronel Gaddafi com a ajuda do Reino Unido e da OTAN acabaram de nomear Abdullah Hakim Belhaj, um ex-membro do LIFG, como seu comandante em Trípoli.
Outro papel sublinha a natureza de duas mãos da troca de informações. Um documento sob o título “Para atenção do Serviço de Inteligência Líbio. Saudações do MI6, que pede informação sobre um suspeito com as iniciais ABS (por razões de segurança, não publicamos o nome completo), que viaja com um passaporte líbio de número 164432. Isso é uma operação sensível e não queremos que nada seja feito para atrair a atenção de S sobre nosso interesse nele. Seríamos gratos por qualquer informação que vocês tenham sobre S“.
Uma das descobertas mais marcantes no conjunto de documentos é uma declaração do coronel Gaddafi durante sua reaproximação com o Ocidente, na qual ele abandonou o programa nuclear e prometeu destruir seu estoque de armas químicas e biológicas.
O líder líbio disse “vamos dar estes passos de uma maneira transparente e verificável. A Líbia afirma que vai cumprir seus compromissos… quando o mundo está celebrando o nascimento de Jesus, como uma pequena contribuição para um mundo cheio de paz, segurança, estabilidade e compaixão, a grande Jamahiriya [outro nome usado por Gaddafi para a Líbia, em árabe, ‘estado das massas’] renova seu pedido honesto por uma zona livre de armas de destruição em massa no Oriente Médio e na África”.
A declaração, na verdade, foi escrita com a ajuda de autoridades britânicas. Uma carta, endereçada a Khalid Najjar, do Departamento de Relações Internacionais e Segurança em Trípoli, diz que “para efeito de clareza, segue anexa uma versão corrigida da linguagem sobre a qual concordamos na terça-feira. Queríamos assegurar que você tem o mesmo script”.
Quando o alto comando da Líbia expressou preocupações com o abandono do arsenal de armas de destruição em massa, que poderia deixar o país vulnerável, o Reino Unido propôs reforçar as defesas convencionais do país usando o marechal de campo Lord Inge, ex-comandante dos militares britânicos, como consultor. Em uma carta datada em 24 de dezembro de 2003, uma autoridade britânica escreveu: “Eu proponho que o marechal de campo Lord Inge, do qual você vai se lembrar bem de setembro, visite dois ou três oficiais-sênior para dar início às conversações”.
Uma quantidade considerável da correspondência diz respeito à visita em que Tony Blair encontrou Muammar Gaddafi em março de 2004, numa época em que o Reino Unido desempenhava papel-chave para tirar a Líbia do ‘gelo’ [isolamento internacional].
Os documentos mostram quanto o MI6 estava envolvido na organização da viagem e o papel jogado por Moussa Koussa. Quando se trata do governo Blair, não é surpresa que o cenário do encontro fosse visto como de grande importância.
Um oficial do MI6 escreveu ao sr. Koussa dizendo: “O número 10 [em referência ao endereço do primeiro-ministro britânico, 10 Downing Street, em Londres] quer que o primeiro-ministro encontre o Líder em uma tenda. Eu não sei porque os ingleses são fascinados por tendas. O fato é que os jornalistas adorariam. Minha opinião é que isso causaria boa impressão sobre a preferência do Líder por simplicidade, o que eu sei é importante para ele. Você deve ter visto entrevistas coletivas muito diferentes em Riade [provavelmente aqui o agente britânico está mexendo com o orgulho dos líbios, que apreciavam sua distinção em relação ao luxo do governo da Arábia Saudita, capital Riade]. De qualquer forma, se isso for possível, o número 10 ficaria muito agradecido”.
O coronel Gaddafi aparentemente queria encontrar o primeiro-ministro britânico em Sirte, sua cidade natal. Atualmente a cidade está sob cerco de guerreiros da oposição. Na carta, o oficial do MI6 escreve: “O número 10 espera que a visita aconteça em Trípoli, não em Sirte. Aparentemente é importante que os jornalistas tenham acesso a hotéis onde eles encontrem facilidades para escrever suas reportagens”.
Seja como for, os espiões estavam lá para assegurar que seus interesses — e os interesses nacionais — fossem protegidos. Na carta, o oficial continuou, “o número 10 pediu que eu acompanhasse o primeiro-ministro e assim espero vê-lo na próxima quinta-feira. O número 10 me perguntou se eu conseguiria enviar um oficial a Trípoli alguns dias antes da visita… penso que isso daria conforto a eles e tudo sairia bem”.
O coronel Gaddafi tinham conseguido se reaproximar do Ocidente em parte por causa de sua luta contra o terrorismo islâmico, a sombra do qual, depois dos atentados de Madri, se projetava sobre a visita de Blair. A carta, datada de 18 de março de 2004, dizia, “o número 10 pediu que eu transmitisse a você o pedido de que não haja publicidade sobre a visita agora ou nos próximos dias — desde Madri todos estamos muito conscientes quanto à segurança”.
[] Notas entre colchetes são da tradução, para facilitar o entendimento
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